Lugar Nenhum

Livros e Autores
Em 25 de maio de 2012
Durante o cafezinho do(a)

Antes de falar sobre este livro, preciso contar como esbarrei nele. Há cerca de dois anos eu morava em Florianópolis e trabalhava em uma empresa de desenvolvimento de jogos. Meu cargo era suporte técnico, mas o que interessa é que todo mundo lá era nerd, assim como eu. Um dos escritores do universo ficcional do jogo um dia mandou um e-mail para todos da empresa dizendo que tinha vários livros que queria vender e perguntou se alguém tinha interesse. Ele passou uma lista com os nomes e vi que a maioria era em inglês. Como eu tenho fluência em inglês, pensei que era uma boa chance de conhecer a literatura estrangeira sem as falhas da tradução. Claro, como sou fã de ficção científica, pensei que era um tesouro que se apresentava. Ele estava vendendo os livros por R$ 5 e R$ 10 e, entre os que lá estavam, comprei o Neverwhere por R$ 5. Logo digo o porquê, mas já adianto que, em uma cidade onde chovia muito na época, foi um dos melhores livros que já li em uma determinada situação.

Pensei em escrever sobre ele porque estava vendo livros no Submarino e de repente vi um que me chamou a atenção. Foi depois que vi que na verdade era o Neverwhere, traduzido e vendido aqui como Lugar Nenhum. Já dá para chamar a atenção para o livro pelo autor, Neil Gaiman. Para quem não o conhece, ele é autor da famosa série Sandman e, também, um conceituado escritor de ficção científica. No livro Neverwhere (vou chamar assim, pois foi assim que o conheci e li), a história é uma espécie de Alice no País das Maravilhas e os filmes mais recentes do Batman. O enredo é, praticamente, Alice, mas o clima é uma união de Batman, em termos de personagens surpreendentes e negros, e cenários que você vê nos filmes de Hellboy.

A história é centrada em Richard Mayhew, um jovem escocês que decide um dia se mudar para Londres. Ele tem um emprego, uma noiva, uma vida comum e um prospecto de futuro, mesmo que não seja um futuro como ele queria. Até que um incidente acontece e Richard entra em um mundo paralelo, a Londres de baixo. A Londres de baixo é tudo que a cidade de Londres é normalmente, a não ser pelo fato de que os que vivem em Londres não veem a Londres de baixo ou o que nela habita. Um mundo diferente de tudo que você pode imaginar é descrito em detalhes que realmente surpreendem, pois não há como comparar direito com outro mundo. Não se trata de criaturas típicas de diferentes mitologias, são realmente coisas novas, criadas exclusivamente por Gaiman. E é ali que tudo fica interessante.

A vontade de falar sobre esse livro se deu pela coincidência de ter encontrado, sem querer, o livro logo nesta época do ano, que mais chove e que torna a leitura muito mais interessante do que se você ler em pleno verão. O clima do livro é negro, mas não necessariamente de terror ou pesado. É negro como um dia chuvoso, onde tudo está sempre molhado, mas ocasionalmente você encontra um lugar seco. Lembro que tomei muito mais café enquanto lia este livro do que outros que já li.

Se você, como eu, nunca leu Alice no País das Maravilhas, mas gostaria de ler uma história extremamente interessante e, apesar de similar no enredo, única, recomendo Lugar Nenhum. Para melhor proveito, leia em uma cama ou sofá, com cobertas e uma xícara de um bom café, de preferência preto.

Não procurei se tem disponível em outros sites, mas no Submarino você encontra o livro neste link.

É uma leitura e tanto por apenas R$ 29,90.

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Rugas iluminadas

Cultura
Em 7 de maio de 2012
Durante o cafezinho do(a)

Eram duas. A da esquerda tinha aqueles cabelos típicos de avó: curtos e pintados discretamente. Em volta da boca, tinha pequenas rugas que franziam os lábios franzinos. A da direita era como todos os registros da história blumenauense mostram as pessoas idosas: de cabelos muito brancos, longos e presos perto da nuca, com os braços grossos envoltos em várias camadas de casacos. Sentei logo atrás, mas não tive nenhum olhar delas, que já estavam compenetradas na história.

Fazia frio no último dia do 1º Festival de Cinema de Blumenau. Uma iniciativa de apaixonados pela sétima arte que provaram para a cidade que não há como dizer que é impossível. O auditório Willy Sievert, no Teatro Carlos Gomes, estava quase lotado para assistir a sua própria história.

O documentário dirigido por Andreas Peters começa leve. A chegada do maestro Heinz Geyer à terras brasileiras e a Blumenau. Mesclando entre animação, depoimentos e uma atuação hora bonita, hora frenética de James Pierre Beck, o documentário manteve calada uma platéia também dividida entre os que conheceram um pouco do maestro, os que o estavam conhecendo ali e os que ansiavam para que Blumenau voltasse a ter bons tempos como aqueles.

Geyer foi, antes de tudo, um guerreiro. Com a sua paixão e o seu feeling na música, conseguiu, sem nenhum tipo de apoio financeiro e com artistas que, mesmo que bons, eram amadores tecnicamente, subir ao palco do Teatro Municipal de São Paulo. As conquistas não pararam por aí: teatros lotados em todo país, o desenvolvimento de um gosto pela apreciação da cultura em Blumenau e a construção de um patrimônio histórico imensurável para cidade.

Guerreiros foram também Andreas e o diretor musical, André de Souza. Num arquivo bagunçado, com pouca catalogação e quase nenhuma pesquisa pronta sobre a obra, transmitiram uma história que começa e termina com música.

Pedra fundamental: na teoria e na prática
Uma das raras fotografias em que Geyer aparece é num momento histórico para a cidade: na inauguração da pedra fundamental do Teatro Carlos Gomes. Assistimos a um debate acalorado de pessoas apaixonadas por cultura e pela personalidade do maestro o porquê de um reconhecimento tardio, de uma falta de continuidade ao trabalho e aos sonhos do maestro.

Não havia atacantes ou defensores, muito menos juízes. Eram apenas dois diretores falando sobre sua obra e sendo compreendidos por uma platéia que buscava respostas inexistentes. Mas todos saíram com uma certeza: Geyer foi a pedra fundamental da cultura blumenauense.

De saudade, de emoção, de tristeza
Depois que as luzes acenderam, pude ver por trás das grossas lentes dos óculos das duas senhoras sentadas a minha frente, lágrimas. Numa bonita confusão, o reflexo da luz da tela se tornou lembrança recente: aquelas duas senhoras depuseram no documentário de Peters. Achei indelicado perguntar se aquelas lágrimas tímidas, que se perdiam em meio às rugas eram de saudade, de emoção ou de tristeza. Mas tive certeza que a história foi muito verdadeira. Aquelas senhoras, com tantas rugas no rosto, não chorariam em vão.

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Os Vingadores vingaram as expectativas

Filmes
Em 27 de abril de 2012
Durante o cafezinho do(a)

Todas as cadeiras, viradas de cabeça para baixo, em cima das mesas. Tudo vazio. Havia mais pedreiros trabalhando em reformas internas que pessoas indo em direção ao cinema. O único Thor por perto, com um martelo na mão, não tinha nada de loiro e pregava tábuas em uma espécie de andaime. Este era o clima do shopping Neumarkt, em Blumenau, ontem à noite, antes da sessão de pré-estréia do filme Os Vingadores.

O horário era muito épico. Ou, deveria parecer. Faltando exatamente um minuto para a meia noite, a sessão teria início. Mas, chegamos uma hora e meia antes, pois conseguimos ingressos com aquele amigo do amigo que de última hora resolveu não ir e queria dormir. Perda a dele. Passamos em sua casa, pegamos os ingressos e fomos para o shopping. Passada a cena de desolação citada anteriormente, sentamos em uma mesa – com cadeiras que baixamos nós mesmos -, e, com uma latinha de cerveja, ficamos conversando sobre qualquer coisa. Aos poucos, mais pessoas foram chegando. As surpresas se deram na forma de grupos inteiros apenas de meninas. Não é preconceito, mas é raro ver meninas indo em uma sessão de Avengers. Na pré-estréia, então, quase inédito. Alguns casais de pessoas mais velhas também estavam presentes – provavelmente algum nerd inveterado que chegou aos 40, mas nunca deixou de querer ser o Homem de Ferro.

Finalmente chegou perto do horário e resolvemos entrar. A sala do filme era grande e sentamos na fileira F, que garante uma visão mais direcionada do que qualquer outra coisa. É aquele velho “foco nas cenas, foco nas cenas rápidas!”. O filme era em 3D. Eu não gosto de assistir filmes em 3D porque acredito que a tecnologia ainda não está no seu primor. Cenas rápidas ainda ficam levemente borradas e para realmente sentir o efeito 3D, é preciso focar bem nas coisas. Apenas detalhes periféricos realmente parecem flutuar ao seu redor. Felizmente, o filme Os Vingadores teve um orçamento muito grande e a tecnologia conseguiu garantir alta qualidade no quesito 3D. Não senti nem metade do incômodo que senti em outros filmes. Provavelmente isso foi devido ao fato de que o 3D deste filme não foi feito parar parecer que objetos voam em sua cara. Ele foi mais fiel ao nome e focou em criar uma terceira dimensão que não vemos em filmes 2D, a profundidade. Pouquíssimos momentos do filme possuem cenas com objetos voando em sua direção, mas sempre há aquela sensação de que é possível entrar pela tela e andar pelo cenário. Ponto bônus para o filme!

Agora, depois de muitas delongas, o filme em si. Primeiramente, é necessário dizer desde já que Os Vingadores é um filme solo. Uma pessoa que não assistiu os filmes que foram prelúdios para ele ou que nem conhecem direito os personagens podem assistir tranquilamente e achar o filme o máximo. Ele tem doses de ação ridiculamente bem feitas, balanceadas com doses de humor dignas de títulos de comédia sem se transformar em algo puramente cômico. Mas, aí fica o aviso do bom amigo. Assistir aos filmes “prelúdios” faz TODA a diferença. Não importa se você achou o filme Thor uma porcaria, com a Natalie Portman tentando roubar a cena. Não importa se você não gostou de nenhum dos dois Hulks (apenas o segundo vale como prelúdio). Não importa se o Capitão América é um símbolo puramente capitalista criado na 2ª Grande Guerra para vender títulos para o exército norte-americano. Não mencionei os filmes do Homem de Ferro porque não consigo criticá-los – para mim, ambos foram excelentes. Conhecer os personagens dá, sim, uma base para saborear melhor Os Vingadores, mas ter assistido os filmes que vieram antes, cria a sensação de que tudo conspirou para este momento. The Avengers se torna, em suma, uma continuação e é algo inédito, pois nunca houveram filmes – quatro, diga-se de passagem – feitos com o propósito de gerar um só. A pressão era grande, sim, mas deu certo. Com 136 minutos de duração, não houve um momento em que algo pareceu errado. “Ah, esta cena não precisava”. “Ah, tá demorando pra passar”. “Meu, isso foi ridículo”. “Eu esperava mais”. Não se ouviram estas frases na saída e com certeza elas não passaram pela minha mente. De certa forma, a fórmula era infalível. Vamos por partes:

Nick Fury é interpretado por Samuel L. Jackson. “Ah, mas como assim? O Samuel não tem NADA a ver com o Nick Fury dos quadrinhos”. Ah, mas aí que reside a questão. O filme é cheio de momentos com citações diretas aos quadrinhos, mas não é para ser uma completa adaptação deles. Apesar de ser uma atuação típica do ator, o personagem não foi forçado a aparecer o tempo todo, como se fosse a estrela. Ponto de novo! Mesmo que você não goste de Samuel L. Jackson como Nick Fury, não é preciso se preocupar pois ele não é a estrela do show.

Eu nem deveria precisar falar da Scarlett Johansson. É simples: ela é gostosa. Mas deixando o machismo de lado, ela é uma atriz excelente. Dai você junta estes dois ingredientes dentro de uma roupa colada de couro, um cabelo que faz jus ao nome e manda ela interpretar um personagem igualmente bom. Não tem erro. Ela não é protagonista, exatamente como Nick Fury, mas cada momento em que ela aparece, é um momento marcante. Seja por humor, seja puramente pela aparência, seja pelos golpes que parecem ter sido coreografados para mostrar suas belas características físicas. Ponto, ponto, ponto!

Personagens revelações foram Bruce Banner e Clint Barton. Houve um rebuliço sobre a escolha para o personagem de Hulk. Descobri, nestes últimos meses, que ninguém gosta de Mark Ruffalo. Não sei por que, eu gosto, mas talvez seja questão de gosto. A verdade, porém, é que ele encaixou perfeitamente. Claro que todo mundo queriam o Edward Norton de volta, afinal, é o Edward Norton. Mas Bruce Banner não é mais o Bruce Banner do filme Hulk. Ele é outra pessoa (explica-se no filme), com outra mente. Este novo Bruce Banner é interpretado muito bem por Mark Ruffalo. Nada de cronômetros cardíacos, nada de suor na testa por qualquer coisa. Ele é um cientista genial, constantemente calmo por estar constantemente ciente de sua constante raiva. Eu achei genial. Já Clint Barton não faz nada incrível. A não ser que ele é basicamente o Legolas sem ser um elfo. Jeremy Renner é um ator mediano. Sua atuação acaba sendo mediana. Ele um assassino/soldado e, no fim, suas cenas são basicamente fruto de sua natureza. Ou seja, quando ele aparece ele, ou está matando gente, ou dizendo que vai matar. A revelação, porém, foi o fato de que ele não é ruim. Clark Gregg, o clássico agente Coulson, que aparecia nos outros filmes, especialmente no Homem de Ferro, da S.H.I.E.L.D, era um ator com falas engraçadas, mas que não parecia se encaixar no filme. Era uma peça extra, quase desnecessária. Jeremy Renner como Clint Barton, o Gavião Arqueiro, deu para o gasto e cumpriu sua função: fazer coisas explodirem. Vale ressaltar algo incrível: as cenas mais hilárias não envolvem o Homem de Ferro, mas, sim, o Hulk. Acredite.

Thor aparece, como no primeiro filme, mas, devido a falta de protagonistas por haver protagonistas demais, ele fica extremamente secundário. Sua atuação não mudou desde o primeiro filme, mas desta vez ele não é o foco. Por causa disso, ele acaba não sendo um dos destaques do filme, o que é meio triste considerando que Thor ainda é o deus do trovão. Mas, felizmente, ele não faz feio. Cumpre seu papel e as cenas em que aparece são bem feitas e divertidas. O que me pareceu, apenas, foi que ele não foi retratado muito fielmente sua verdadeira natureza. Ele ainda é o deus do trovão, mas há momentos em que ele parece ter sido diminuído em seus poderes. Claro que é necessário equalizar os personagens, não pode haver um super deus todo poderoso, senão qual seria a necessidade dos outros, mas ainda há um sentimento latente de “ele poderia ter feito mais”.

O Homem de Ferro é o Homem de Ferro. A atuação de Robert Downey Jr. é a melhor do filme, disparada. Inclusive uso como argumento o fato de que se houvesse outro ator mais marcante, eu teria lembrado, mas não consigo no momento. Suas falas são sarcásticas, pontuadas nos momentos perfeitos e nenhum outro ator domina tanto a expressão de sentimentos, seja raiva, sarcasmo ou tristeza como Robert. Maaaas, ele não rouba a cena, o que é um ponto bom, pois ele não deveria roubar. Suas engenhocas são o sonho de consumo de qualquer pessoa do sexo masculino e estão mais bem feitas digitalmente que nunca, mas quem lidera o grupo ainda é o velho Capitão América. Infelizmente, o Capitão América não é o cara mais bem humorado que existe. Ele é oldschool, lutou na 2ª Guerra Mundial e é basicamente um velho. Entende-se perfeitamente. E este é o problema. Ele é aquele cara com discursos moralistas e bonitos de “go team”, o que acaba sendo fiel ao personagem que ele é, mas com todos os outros elementos do filme, acaba sendo quase brega, o que, novamente, é quem ele é como personagem. É meio difícil decidir se tudo isso é bom ou ruim, mas uma certeza existe: a fórmula funcionou. Ele acaba encaixando como o líder do grupo eventualmente e não há uma sensação de que existe um líder melhor. No fundo, você sabe que o Hulk só serve pra sair correndo e esmagando tudo, o Thor deve voar soltando raios, o Homem de Ferro fazendo o que ele sabe fazer de melhor, usando todas milhões de miniarmas na armadura e o Capitão América deve ficar lá, no chão, apanhando de todos, mas sempre resistindo e sempre sendo o exemplo de “vamos vencer!”. É clichê, mas é legal e funciona.

Quanto à história em si, tem um background legal, mas puxa bastante para um dos personagens. Não vou entrar em detalhes, mas não é segredo para quem viu o trailer que o vilão da vez é Loki, o irmão de Thor. O ator encarna bem o deus traiçoeiro, mas pra quem gosta de avaliar a psique dos personagens, ele é um caso bem legal. Às vezes tu quase gosta dele e às vezes tu só fica feliz por ter super heróis querendo bater nele.

Em suma, o filme é excelente. Os efeitos especiais são de primeira, o elenco é lindo, a história é legal, os personagens são fielmente retratados (mesmo que à sua própria maneira), entretém mesmo quem não assistiu os prelúdios ou não conhece bem os personagens, vale o dinheiro, vale ver mais de uma vez no cinema, vale ver em 3D, vale ver em 2D, é tudibom. Me atrevo a dizer que fazia tempo que não via um filme em que não saia apontando defeitos. Claro, sempre vai ter quem diga que tem aquela fria muito fria e que aquilo lá não foi tão fiel ao personagem original, mas se você avaliar o filme como uma obra única, nascida dos outros filmes e não puramente dos quadrinhos, é um 9,5 garantido. E, digo uma única coisa: se todo filme tem um personagem que rouba a cena, dá pra dizer tranquilamente que não é quem todo mundo esperava. E isso acaba sendo muito bom.

Recomendo!

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