Ela entrou naquele café meio sem querer, na verdade foi pra escapar da chuva que caia insistentemente naquela tarde de primavera que ainda trazia consigo as brisas do inverno. Sentou-se perto da janela, com aquela desconfiança de que a chuva atrapalharia seus planos de chegar ao trabalho, olhava para as pessoas que passavam apressadas, correndo, fugindo, em busca do tempo perdido que na verdade nunca tiveram.
Conseguiu ver seu rosto e cada um que passava, reclamando e pulando as poças, porque logo hoje tinha que chover, como se o dia importasse para a chuva, que só desejava cair. Dias chuvosos são feitos para ficarmos em casa, pensou.
Pediu um café, “preto por favor”, afinal precisava de companhia, retirou da bolsa um livro, alguns poemas que levava sempre consigo para caso existisse uma brecha no seu dia, o que é praticamente impossível. Abriu o livro, que parecia nunca ter sido folheado antes, na primeira página um recado de sua mãe: “Filha, pare e respire.”, no mesmo instante um suave suspiro encheu de ar seus pulmões, aquela brisa com cheiro de terra molhada e café feito na hora lhe trouxe a sensação de que aquela tarde poderia tornar-se uma bela tarde chuvosa.
Algumas páginas e xícaras depois, resolveu conferir a hora, já estava atrasada, e muito, sentiu-se aflita e lembrou do recado de sua mãe, parou. Respirou. Respirou novamente, é impressionante como as coisas mudam depois que respiramos com vontade e não por instinto.
A chuva diminuiu, resolveu ir, ao levantar-se, pensou, o livro fica, e deixou-o sobre a mesa, o livro ficou para a próxima alma apressada que precisava daquele conselho, e partiu, atrás do tempo perdido.








