Eram duas. A da esquerda tinha aqueles cabelos típicos de avó: curtos e pintados discretamente. Em volta da boca, tinha pequenas rugas que franziam os lábios franzinos. A da direita era como todos os registros da história blumenauense mostram as pessoas idosas: de cabelos muito brancos, longos e presos perto da nuca, com os braços grossos envoltos em várias camadas de casacos. Sentei logo atrás, mas não tive nenhum olhar delas, que já estavam compenetradas na história.
Fazia frio no último dia do 1º Festival de Cinema de Blumenau. Uma iniciativa de apaixonados pela sétima arte que provaram para a cidade que não há como dizer que é impossível. O auditório Willy Sievert, no Teatro Carlos Gomes, estava quase lotado para assistir a sua própria história.
O documentário dirigido por Andreas Peters começa leve. A chegada do maestro Heinz Geyer à terras brasileiras e a Blumenau. Mesclando entre animação, depoimentos e uma atuação hora bonita, hora frenética de James Pierre Beck, o documentário manteve calada uma platéia também dividida entre os que conheceram um pouco do maestro, os que o estavam conhecendo ali e os que ansiavam para que Blumenau voltasse a ter bons tempos como aqueles.
Geyer foi, antes de tudo, um guerreiro. Com a sua paixão e o seu feeling na música, conseguiu, sem nenhum tipo de apoio financeiro e com artistas que, mesmo que bons, eram amadores tecnicamente, subir ao palco do Teatro Municipal de São Paulo. As conquistas não pararam por aí: teatros lotados em todo país, o desenvolvimento de um gosto pela apreciação da cultura em Blumenau e a construção de um patrimônio histórico imensurável para cidade.
Guerreiros foram também Andreas e o diretor musical, André de Souza. Num arquivo bagunçado, com pouca catalogação e quase nenhuma pesquisa pronta sobre a obra, transmitiram uma história que começa e termina com música.
Pedra fundamental: na teoria e na prática
Uma das raras fotografias em que Geyer aparece é num momento histórico para a cidade: na inauguração da pedra fundamental do Teatro Carlos Gomes. Assistimos a um debate acalorado de pessoas apaixonadas por cultura e pela personalidade do maestro o porquê de um reconhecimento tardio, de uma falta de continuidade ao trabalho e aos sonhos do maestro.
Não havia atacantes ou defensores, muito menos juízes. Eram apenas dois diretores falando sobre sua obra e sendo compreendidos por uma platéia que buscava respostas inexistentes. Mas todos saíram com uma certeza: Geyer foi a pedra fundamental da cultura blumenauense.
De saudade, de emoção, de tristeza
Depois que as luzes acenderam, pude ver por trás das grossas lentes dos óculos das duas senhoras sentadas a minha frente, lágrimas. Numa bonita confusão, o reflexo da luz da tela se tornou lembrança recente: aquelas duas senhoras depuseram no documentário de Peters. Achei indelicado perguntar se aquelas lágrimas tímidas, que se perdiam em meio às rugas eram de saudade, de emoção ou de tristeza. Mas tive certeza que a história foi muito verdadeira. Aquelas senhoras, com tantas rugas no rosto, não chorariam em vão.
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